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Desigualdade salarial entre homens e mulheres: uma questão de família?

O abismo de oportunidades entre homens e mulheres começa em casa, segundo a ganhadora do prêmio Nobel, Claudia Goldin. O progresso feminino no mercado de trabalho e a diminuição das desigualdades de gênero dependem do poder de escolha e da redistribuição de papéis nos lares

Grazi Mendes
12 de julho de 2024
6 min de leitura
Desigualdade salarial entre homens e mulheres: uma questão de família?

“E a família, vai bem?” A pergunta, que pode ser o início de uma conversa entre pessoas que se conhecem, é também pista para as conclusões de uma pesquisa que lança luz sobre um tema que discutimos muito e avançamos pouco no universo profissional. A disparidade salarial entre homens e mulheres talvez seja a última fronteira das discussões sobre igualdade de gênero no mercado de trabalho. Pois não basta apenas incluir e desenvolver, queremos ser promovidas e ocupar por direito posições de protagonismo e liderança.

Somos a maioria no ensino superior, de acordo com o IBGE, e há uma clara tendência de nos prepararmos mais que os homens. No entanto, ainda somos menos promovidas que eles. E mesmo que alcancemos os mesmos cargos, não somos agraciadas com os mesmos louros, ou melhor, com os mesmos rendimentos. No LinkedIn a realidade é muito mais bonita que no contracheque.

Não há aqui espaço para dizer que é conversa de mimimi ou lacração. Estamos falando de um desequilíbrio sistêmico (e sistematizado) que nos acompanha há séculos. Um problema que não vai se resolver naturalmente, porque é alimentado e reproduzido desde o dia em que nascemos, inclusive onde deveríamos nos sentir mais respeitadas e igualmente reconhecidas.

O problema começa em casa. Na primeira instituição social que interagimos e aprendemos quais são os contornos da nossa socialização. Quem esclarece isso e traz uma nova perspectiva sobre como a família está na base da desigualdade é Claudia Goldin, professora de Harvard e primeira mulher a conquistar o prêmio Nobel de Economia sozinha em mais de cinco décadas.

Goldin dedicou praticamente toda sua carreira a estudar o abismo de oportunidades entre homens e mulheres na economia global, conectando pontas que vão dos impactos da revolução industrial à mudança de sobrenome após o casamento. Sua pesquisa vencedora do Nobel tem como base a análise de dados de mais de 200 anos de participação feminina no mercado de trabalho.

As principais descobertas de Goldin apontam para o paradoxo que se formou entre ambientes profissionais que recompensam a disponibilidade irrestrita de seus colaboradores e a histórica sobrecarga de afazeres domésticos imposta às mulheres — acentuada após o nascimento do primeiro filho, como mostra sua pesquisa.

No Brasil, por exemplo, as mulheres dedicam uma média de 21,3 horas semanais aos cuidados com a casa e com a família, enquanto homens gastam 10,9 horas com as mesmas tarefas. Os mesmos homens que têm sua vida profissional inalterada com o nascimento dos filhos e multiplicação das tarefas domésticas são aqueles que depois não reconhecem e pagam às mulheres salários justos. Elas recebem, em média, 78% menos do que homens que exercem as mesmas funções, segundo o IBGE. Para além das diferenças na remuneração, são elas também as maiores vítimas de problemas de saúde física e mental, por sobrecarga. Ou seja, nós cuidamos de tudo e ninguém cuida de nós.

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O efeito maternidade no gap salarial entre homens e mulheres. Ilustração: Johan Jarnestad/The Royal Swedish Academy of Sciences.

Tivemos avanços? Não sobram dúvidas. As últimas décadas trouxeram alguns marcos históricos relacionados aos direitos básicos e à redefinição do papel das mulheres na economia, na sociedade e na família. Como já falei em uma coluna anterior, a chegada de cada mulher a uma posição de liderança é mais do que uma conquista individual: é resultado de um conjunto de lutas históricas e coletivas. Entretanto, é preciso recordar alguns pontos. O principal deles é que, estatisticamente, ainda estamos falando de uma minoria absoluta. De acordo com o último levantamento realizado pela Fundação Dom Cabral, apenas uma em cada dez CEO’s do Brasil é uma mulher ou uma pessoa negra.

Insisto em dizer: a desigualdade de gênero não vai desaparecer naturalmente. Para aqueles que ainda acreditam nesse pensamento mágico, os estudos de Goldin apresentam um retrato didático sobre como o desenvolvimento econômico não resultou na ocupação automática de mais mulheres em postos de trabalho ou na redução da desigualdade salarial. Pois uma outra importante descoberta da pesquisadora é o fato que, ao contrário do que se pensa, o aumento da participação feminina no mercado profissional não apresenta uma tendência histórica ascendente. A evolução aconteceu em uma “curva em U” que envolve fatores históricos interdependentes.

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A curva em U da participação feminina no mercado de trabalho ao longo dos últimos séculos. Ilustração: Johan Jarnestad/The Royal Swedish Academy of Sciences.

Desde o recolhimento observado durante a revolução industrial até a reincorporação no mercado de trabalho com a ascensão da economia de serviços, a curva em U ilustra os principais impulsionadores da crescente participação feminina nas atividades econômicas globais. Estes são: o acesso à educação, a mudança nas perspectivas de ascensão e, crucialmente, a invenção da pílula anticoncepcional. Essa trajetória destaca que a continuidade desse progresso, bem como a diminuição de suas desigualdades, dependem do poder de escolha e da redistribuição de papéis nos lares.

No entanto, como mulher negra, quero ressaltar que essa evolução não é uniforme. A pesquisa de pós-doutorado da professora e presidente do Instituto Geledés, Antonia Quintão, na USP, sublinha o impacto do racismo no desenvolvimento profissional de mulheres negras em São Paulo. Revela-se disparidades significativas em salários, cargos e oportunidades em relação às mulheres brancas, mostrando que estas diferenças não só existem como têm raízes históricas.

Antes de concluir este texto, convido você a voltar a cada uma das imagens que o ilustraram, agora com uma nova lente: e a família, vai bem? As ilustrações, divulgadas pela organização do Nobel de Economia, não deixam dúvidas sobre a mensagem central trazida pelas conclusões da pesquisa de Goldin: o papel das estruturas familiares na formação de um mercado de trabalho verdadeiramente igualitário e de uma sociedade verdadeiramente próspera, porque é justa. Reproduzo aqui as palavras de Michele Obama ao dizer que “nenhum país pode desabrochar de verdade se ele poda o potencial das suas mulheres e se priva das contribuições de metade da sua população”.

Precisamos voltar os olhos para nossas famílias e convidar os homens a prestarem atenção ao que acontece com esposas, irmãs, filhas e netas. A forma como agimos e interagimos – nós e eles – vai influenciar significativamente a vida delas e de todas nós aqui fora. A construção do mundo que desejamos começa, literalmente, dentro de casa.”

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Grazi Mendes
Grazi Mendes está como head of diversity, equity & inclusion na ThoughtWorks Brasil, consultoria global de tecnologia, é professora em programas de desenvolvimento de lideranças e cofundadora da Ponte, hub de diversidade e inclusão. Acumula cerca de 20 anos de experiência em gestão estratégica, branding, design estratégico, liderança e cultura, com atuação em empresas nacionais e multinacionais de segmentos diversos.

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